Resenha Histórica

Nos finais do século dezanove, Calvão é uma capelania da Paróquia de Vagos. A capela é dedicada a S. Pedro. Tem altar mor e dois laterais, um deles dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. O capelão residente, P.e Joaquim da Rocha Brites, de Calvão, viria a falecer em 05/12/1916, com 88 anos de idade. O P.e Claudino José Domingues "o Filósofo", do Canto de Calvão, colaborava em algumas actividades, prestando serviço religioso mais assiduamente, na Paróquia do Seixo de Mira e outras localidades mais para Sul. Viria a falecer em 12/ 01/1953, com 86 anos de idade. De Calvão, foi também o P.e Claudino Brites que, pouco tempo após a ordenação sacerdotal, foi para Angola, onde se fixou e viria a falecer em 1920, com 50 anos de idade.
Diz-nos Manuel da Rocha Creoulo, nascido em 15/ 01/1908 que os dois primeiros sacerdotes eram suficientes para prestar assistência religiosa às povoações vizinhas e o P. e Joaquim era muito idoso e sofria de muitos achaques.
O grande esforço religioso que se fazia nesta altura, era no sentido de manter a unidade e a religiosidade entre a população, valores ameaçados pelas ideias anti-religiosas provocadas pela revolução liberal que culminou com a implantação da República em 1910.
Nesta época, Vagos pertencia à Diocese de Coimbra. É ao Arcebispo de Coimbra que, em 18 de Novembro de 1915, um Grupo de residentes em Calvão, envia um requerimento a pedir a criação da Paróquia. Os requerentes pertencem aos lugares de Calvão, Cabecinhas, Canto de Calvão, Choca do Mar, Ponte de Vagos, Carvalhais e Parada de Baixo. Apresentam como razões:
• que estes lugares ficam a mais de 10 km de distância de Vagos e as vias de comunicação são poucas e de difícil trajecto; • a área tem muita população em franco crescimento;
• o Capelão é de avançada idade e com muitas doenças, por isso, morrem muitas pessoas sem sacramento e há enterros sem encomendação;
• têm uma capela nova, bem conservada, que serve para igreja e comprometem-se a sustentar o Pároco a nomear, arranjar casa de habitação e os objectos e alfaias sagradas para o exercício do culto.
O P.e Joaquim Brites, capelão na altura da petição, viria a falecer logo em seguida, como atrás se referiu.
Alguns homens, que subscreveram o documento vão a Coimbra, ao Paço Episcopal, falar com o Sr. Arcebispo que os informa haver em Bolho, Cantanhede, um Padre ordenado em 22/06/1913, que ficou na sua terra mas pretendia ir para outra Paróquia.
Como o objectivo era encontrar um sacerdote que substituísse o capelão falecido, vão a Bolho encontrar-se com o P.e António Martins Baptista. Este aceita o desafio de conhecer novas gentes, até porque era o povo que andava à procura de um padre. Vem para Calvão em 1921, coma ânsia enorme de evangelizar. 
Era jovem e dinâmico. Dotado de um ideal cujo objectivo é a promoção integral da pessoa humana com respeito pela sua dignidade. Calvão tinha uma juventude pujante, trabalhadora e aberta a novos horizontes. É a ela que se dedica.
São os filhos dos que enviaram o requerimento ao Sr. Arcebispo de Coimbra a solicitar a criação da Paróquia de Calvão.
Com uma dinâmica muito própria, (era filho de lavradores e comerciantes), integrou-se rapidamente no modo de viver das gentes que nele confiaram para Pastor.
Criou vários movimentos que incluíram adultos, jovens e crianças, levando assim à participação de toda a comunidade. São exemplos desses movimentos:
• Conferência Vicentina • Filhas de Maria
• Escuteiros - 1928
• Grupo Coral -1924
• Grupos da Juventude católica, masculino e feminino.
A par do anúncio do Evangelho procurou participar activamente na evolução económica e sociocultural do povo a que foi confiado, conseguia motivar as pessoas de forma a que, à luz do Evangelho, fossem evoluindo para uma vida mais digna. Mantinha reuniões periódicas onde eram analisados os problemas que afligiam a população. Incentivou os agricultores a procurarem culturas agrícolas menos duras e mais rentáveis. Aconselhou a aquisição e recria de gado leiteiro em substituição dos bois e vacas marinhas. Nesta altura não havia estradas alcatroadas, eram caminhos de areia no Verão, e água e lama no Inverno, por isso, todas as casas tinham, pelo menos, um cavalo ou égua, para fazerem as viagens com mais facilidade.
Com a sua intervenção, Nazaré Hipólito e a irmã, adquiriram uma desnatadeira manual que utilizava o leite comprado aos produtores para o fabrico de queijo e manteiga, que depois era comercializado.
Procurou que os agricultores se associassem na constituição do "Rol do Gado", tipo de "mútua seguradora" gerida pelos sócios, que são os possuidores do gado e por eles financiada e tinha como objectivo compensar os prejuízos resultantes da doença ou morte do gado que dava leite e que era a única fonte de subsídio e riqueza de quem trabalhava a terra.
Possuía uma capacidade muito grande de dedicação aos outros. Ensinava os jovens, após a idade escolar, que pretendiam concretizar um projecto de vida diferente. Muitos deles ingressaram no Seminário que na altura, era a única instituição que dava a possibilidade a que os mais pobres se valorizassem intelectualmente.
Segundo Manuel da Rocha Creoulo e Rogério Grilo, a igreja foi iniciada em 1924. Pode dizer-se que se tratou duma ampliação. O corpo da capela foi posto abaixo, bem como o altar do lado Sul. Ficou o altar-mor e a capela do Sagrado Coração de Jesus. Em 1925, ficou pronta para o culto. Estavam criadas as condições para a elevação, a Paróquia da capelania de Calvão - Vagos e que veio a efectivar-se em 11/06/1927 e da qual passavam a fazer parte todos os ugares que integravam a petição de 18/11/1915.
Em 1927, iniciou-se a aquisição de terrenos para a construção dum cemitério. Localização: os Mortais (actual). O existente, junto à igreja, tornava-se pequeno e não havia espaço para o ampliar.
A população, em especial a juventude, necessitava de instalações para ocuparem os tempos livres, principalmente aos domingos. Em 1928, começou a construção da Casa da Juventude.
 
A Paróquia ficou então servida com as infra-estruturas necessárias e segundo as possibilidades da época, pelo que o P.e Baptista iniciou uma nova caminhada, tendo em vista outra forma de apostolado.
Segundo o Prof. Dr. P. Filipe Rocha, "não era uma coisa ideal ou imaginária, mas sim do coração que em si vivia e que o impulsionava a não entregar ao descanso nem ao desfalecimento". Foi esse o desejo que o levou a fundar, em 11/04/1932, a obra "Amigos dos Sagrados Corações de Jesus e Maria. O objectivo era formar sacerdotes que se dedicassem à causa operária. De imediato iniciou a construção dum edifício para albergar os futuros apóstolos operários. Com a colaboração de quase toda a população de Calvão, adultos e jovens, as estacas foram cravadas nos locais onde ficariam os alicerces, as juntas de bois iam carregando, sob das areias, o ferro, a cal e os adobes que chegavam a Calvão pela Estrada Nacional 109, já construída até Mira e Cantanhede, em viaturas (camionetas) movidas a carvão. As paredes crescem, é colocado o telhado e as portas e janelas e o Colégio de Calvão é inaugurado em 10/10/1937.
Em 14/04/1939 o Pe. Batista é colocado na Paróquia de S. Caetano, por nomeação Episcopal e posteriormente na Tocha, onde veio a falecer em 09/03/1946. O povo de Calvão pediu autorização à família e os seus restos mortais vieram para a Paróquia que criou, em cujo cemitério está sepultado em capela mandada construir para esse fim.
Em Outubro de 1939, é nomeado pároco de Calvão o P. Augusto Gomes da Silva. Como coadjutor ficou o P. Manuel Ferreira Pinho Aguiar que auxiliava o P. Batista, e prestava assistência religiosa ao povo de Ponte de Vagos.
Como não havia residência Paroquial foi construído edifício para esse fim, no início da década de quarenta.
A partir de Outubro de 1957 passou a desempenhar as funções de Pároco o P. José Félix de Almeida, nomeado coadjutor de Calvão desde 25/10/1955. Dedicou-se de alma e coração, conforme lhe foi solicitado pelo Bispo de Aveiro, D. Evangelista de Lima Vidal, à recuperação das instalações do Colégio de Calvão, iniciadas pelo P.e Baptista, para aí funcionar o Seminário Menor de Aveiro, que viria a ser inaugurado em 16/10/1960.
Influenciou positivamente a criação da Paróquia de Ponte de Vagos, por desmembramento de Calvão.
Em Setembro de 1961, o P. Félix deixa a Paróquia de Calvão e passa a exercer actividade no Seminário de ossa Senhora da Apresentação de Calvão, como Director Espiritual.
E nomeado pároco de Calvão, o P.e José António de Jesus Capela.
A igreja construída pelo P. Baptista foi considerada pequena para albergar a população que frequentava os actos religiosos. Em sua substituição foi erigida uma de traços modernos e mais ampla, que viria a ser inaugurada em 22/09/1974.
Em 1983, após a liquidação dos encargos resultantes da construção da igreja, inicia-se o estudo para recuperação da residência Paroquial; mas como estava em muito mau estado, optou-se pela construção de uma nova, que no entanto não avançou para alem das fundações, devido ao desentendimento entre o pároco e o povo. Em 1984, o P. Capela foi para Bustos vindo a falecer em 16/04/1985.
Em 1984 é nomeado para paroquiar a comunidade de Calvão o P. José Arnaldo Simões.
Em 1987, a antiga Casa da Juventude, construída na época do P. Baptista é substituída por um edifício novo com dois pisos, dividido em várias salas.
Pensou-se no seu aproveitamento para a implantação de uma creche pelo que o Dr. Rocha Cabral do Centro Regional de Segurança Social de Aveiro, visitou as instalações. Eram necessárias obras de adaptação que não foram realizadas e a oportunidade gorou-se.
Presentemente as salas são ocupadas pelas crianças da catequese e outros movimentos paroquiais.
Em 1991, é construída uma residência Paroquial anexa à igreja, que ocupa o 10 piso, funcionando no rés-do-chão a sacristia e um pequeno salão para festas para a comunidade.
Em 1992, inicia-se a construção do Centro Social Paroquial de Calvão, com referência especial nesta publicação.
Ao longo dos anos as famílias de Calvão, cristãs por tradição e convicção, têm orientado os seus filhos segundo a religião que praticam. Do seu seio têm brotado muitas vocações sacerdotais e religiosas, que exercem o seu múnus apostólico na Europa, África e América.
O seu povoamento teve origem na segunda metade do século XVI. Sendo Calvão uma zona de paisagem, através do antigo caminho dos cavaleiros, aqui foram-se fixado pescadores da zona da Figueira da Foz.
Temos como muito duvidosa a presença dos romanos na nossa zona, embora o historiador Dr. Reigota pretenda ter encontrado alguns vestígios dessa época na vila de Vagos, e, o que é mais vestígios da Pré-historia na Quinta da Mónica, em S. Romão e em Sosa. De qualquer modo, não aparecendo a menção de Calvão no primeiro numeramento do Reino realizado em 1527, aldeia terá nascido e sido povoada após esta data e em consequência dos Descobrimentos e do aparecimento de novas culturas agrícolas, nomeadamente o arroz, o milho e a batata, estas últimas trazidas da América. Até ao século 16 Calvão não passaria de um extenso areal com o mar a afastar-se a pouco e pouco, embora ainda muito perto (ao contrario do que vai acontecendo mais recentemente). Essa característica é denunciada pela grafia antiga de Portomar (Petomar-perto do mar e não porto de mar como alguns pretendem), sendo clara uma reentrância do Atlântico nesta zona a sul de Aveiro, desenhada em mapas de navegação medievais a que tivemos acesso. Aqui e ali surgiriam eventualmente alguns matagais povoados por feras, devendo a vegetação ser muito diferente da de hoje, pois o pinheiro e a acácia não são espécimes autóctones. Haveria pontualmente castanheiro (a alimentação era a base de trigo, centeio e castanha, antes de aparecer o milho e a batata), sobreiro e carvalho (atente-se no nome de Carvalhais, aqui bem perto). Para esta zona viriam pastar, na Idade Média, gados oriundos da Serra da Estrela (facto que está documentado), pelo que é de supor também a existência de pastagens entre a Bairrada e o mar. Há menos de um século era frequente ver nesta zona toiros em pastoreio a solta. Aliás, a monografia da Gafanha, escrita pelo Padre Resende da a este respeite uma noticia interessante. Joana Gramata, a Maluca, suposta povoadora da Gafanha, casou com um tal Graça, natural de Calvão, sendo ele guardador de gado. Deu à Gramata um longo rol de filhos, o que faz supor não ter deixado a valentia apenas por conta dos toiros que guardava! De qualquer modo o nome Choca poderá derivar eventualmente das chocas (choqua nos secs. 16 e 17) ou chocalhos que os animais traziam ao pescoço para facilitar a sua localização em casode desvario da manada. Faz também algum sentido a origem latina do vocábulo Calvão, como um caminho vão, vazio ou deserto (Calle+vanu). O termo latino calle, significando caminho, aparece por exemplo em Cale da Vila (Gafanha da Nazaré). Seria intressante pesquisar a eventual coicidencia de apelidos seiscentistas daqui e de Calvão de Chaves (que foi concerteza romanizado), verificados os quais, não teríamos dúvidas de que o baptisnmo se terá ficado a dever a uma personagem transmontana para aqui deslocada na época tanto mais que esse fluxo não seria de estranhar, pois se fazia de mais longe, embora pelo mesmo caminho da Galiza, como deixamos claro a propósito da Tocha. Afirmar que isto terá sido uma pequena villa rural pertencente a um senhor romano de nome Callvanis, não passa de mais rematada tolice.
Não podemos esquecer que Calvão foi até as primeiras décadas deste século um simples lugar da freguesia e paróquia de Vagos, sendo que todos as actos relevantes como casamentos e baptizados eram realizados na igreja de Vagos, à excepção dos enterramentos, que a partir de 1750 eram feitos em Calvão, primeiro dentro da capela e mais tarde no cemitério que surgiu em frente e que só foi desactivado nos anos quarenta.
Referimos acima alguns nobres de Vagos e a ligação dum deles com gente de Calvão. Lourenço da Silva teve ascendentes seus íntimos de El-rei D. João I outros a pilotar caravelas nas Descobertas e um deles morreu em Alcácer-quibir ao lado de Dom Sebastião, tendo todos exercido cargos de alto relevo nacional. E a ligação com Vagos era efectiva e sempre que possível física. O nobre, senhor de Vagos, aparece, só no ano de 1635, como padrinho de baptismo, seis vezes. Ficou mencionado outro homem rico e nobre, António da Fonseca Guimarães, com ligação a gente de Calvão, como vimos.